sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Reflexões Feministas

Faz tempo que não venho aqui, mas é por falta de conexão e de ideias.

Mas hoje fiquei pensando na relação entre a mulher, gênero e a indústria de consumo. Esta conexão só foi possível por causa das reflexões que estava fazendo sobre a minha própria vida, quando pensava nas coisas que eram recicladas pela minha mãe. Isto me levou a uma hipótese (que talvez alguém já tenha transformado em tese) de que as razões que levaram as mulheres ao espaço público para o mundo do trabalho estão relacionadas ao consumo. Explico-me melhor: as mulheres, mães em geral, diante das dificuldadades financeiras, transformavam e criavam produtos que acabavam servindo para outros fins, diferentes daqueles originais.

Esta atitude certamente não é interessante para uma sociedade que se alimenta da venda compulsiva de produtos industrializados e não da transformação destes, na maioria manufaturados.

Em casa, com uma máquina de costura, uma caixa de linhas e agulhas, as mulheres se viravam para economizar. Vivi os anos 70, mas meus pais foram contemporâneos de duas guerras que tiveram efeitos mundiais: a 2ª Guerra Mundial (1945) e a Guerra do Vietnã (1968). Nesta época, a escassez fez com que as pessoas não desperdiçacem, ecomizassem, transformassem o que pudessem, pois não havia nem dinheiro, nem o que comprar.  Além disso, a pobreza era avassaladora. Não se deixava comida no prato e nem se jogava fora. Tinha que colocar o necessário, se possível repetir, mas nunca jogar fora. Os interruptores dos ambientes deveriam estar desligados se não houvesse uma pessoa neles. Deste modo, as mulheres controlavam as finanças, monitoravam o consumo de água e energia em casa e buscavam suprir as necessidades domésticas através de trabalhos manuais, principalmente a costura: na mão ou na máquina, bordando, tricotando ou fazendo crochê. Lembro-me particularmente de uma cortina que fizemos com plástico e caroço de tonteira (uma árvore que, segundo crença popular, quem estivesse tonto poderia ser curado se ficasse debaixo dela).

A mulher passou para a esfera pública para alimentar o mercado, mas, também, para eliminar uma concorrente ideológica, já que a customização implica em transformação, em aproveitamento de um material para dar origem a outro, isto é, um produto possível de ser adquirido gratuitamente ou a preços módicos. Certamente esta técnica oferece não apenas um novo produto, mas propõe uma nova maneira de lidar com as coisas. No lugar de jogar fora (interessante para o consumo, para os negócios) aproveita-se, transforma-se, cria-se.

As mulheres no mercado de trabalho alavancaria o comércio, mas também tiraria de circulação qualquer concorrência que viesse a confrontar o sistema vigente.

Assim, a indústria une-se à voz das feministas para dizer que elas venceram, elas podem agora trabalhar: as mulheres agora podem ter uma profissão, um emprego. Mas essa falsa concessão de poder é regulada pela voz patriarcal que diz: "Você vai trabalhar porque é interessante para nós, no entanto continuará presa à casa e aos sentimentalismos". Desta forma, é enganoso o discurso emancipatório das mulheres, já que, do ponto de vista das emoções, continuam reguladas para serem amorosas, mães, dedicadas... aliás a dedicação é bem vista pelos gananciosos, ávidos por profissionais que possam exercer as suas funções com perfeccionismo e, preferencialmente, sem reclamar.

A dupla jornada da mulher resulta dessa conjuntura, da apropriação do discurso feminista, customizando-o para que atendesse aos interesses patriarcais. Por isso, é difícil uma posição categórica e generalizante sobre a condição da mulher hoje, pois se elas agora podem ter uma profissão e atuar nela, por outro continuam responsáveis pela casa. Esta situação tem sido valorizada por meio de um falacioso discurso de empoderamento da mulher, pois ela agora é multifuncional, como se isso fosse um grande elogio. Talvez a palavra mais apropriada fosse multiexplorada. Assim como uma máquina que pode fotocopiar e imprimir, as mulheres podem alavancar a economia e se responsabilizar pelo trabalho da casa. A Mulher Maravilha não é mais aquela que disfarça a sua identidade atuando ora como secretária, ora como defensora da justiça. A sua dupla identidade agora é revelada e aceita: ela é dona-de-casa, médica, professora, advogada, engenheira, psicóloga... ops, mas e a defensora da justiça?

sábado, 17 de novembro de 2012

Sugestões em Literatura Infantil

Conforme havia prometido, segue abaixo alguns livros sobre literatura infantil e outros que foram citados no curso de extensão Literatura Infantil:

Estudos:

Com a Palavra o Ilustrador, (org.) Ieda de Oliveira - livro rico em análises sobre a ilustração no livro infantil.
Em Busca dos Contos Perdidos, Mariza B. T. Mendes - trata das personagens femininas em Charles Perrault.
Literatura Infantil Brasileira, Leonardo Arroyo
O que é Literatura, Lígia Cadermatori
Literatura Infantil: Voz da Criança, Maria José Palo
Gramática da Fantasia, Gianni Rodari
A Imagem nos livros infantis, Graça Ramos

Outros:

Cultura Popular na Idade Moderna, Peter Burke - trata da relação entre cultura popular e a burguesia emergente. Importante para entender como a literatura infantil tem suas raízes na cultura popular e como esta cultura foi importante para a nova ordem social.
Teoria Literária, Jonathan Culler - discute a própria identidade da literatura.

Literários:

Não Era Uma Vez..., Vários autores, ilustrado por Mariana Massarani - Trata-se de retextualizações dos contos de fadas feitos por escritoras(es) da América Latina.
O Ogro da Rússia, Victor Hugo
Chapeuzinho Amarelo, Chico Buarque
Chapeuzinho Vermelho, Irmãos Grimm
Chapeuzinho Vermelho, Charles Perrault

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Literatura Infantil e Feminismo

Como havia prometido, segue abaixo algumas sugestões de livros de literatura infantil que podem ser analisados de uma perspectiva feminista com abordagem de gênero:

1. O Menino Nito, Sonia Rosa
2. Uma Estrada junto ao Rio, Marina Colasanti
3. Chapeuzinho Amarelo, Chico Buarque
4. Quem tem Medo de Dizer Não, Ruth Rocha
5. Dona Baratinha, Ana Maria Machado
6. Pena de Pato e Tico-Tico, Ana Maria Machado
7. Mariana do Contra, Rose Sordi
8. Felpo Filva, Eva Furnari
9. Mamãe Bela, Mamãe Fera, Marta Lagarta

Em breve, posto mais alguns.

Curso de Extensão Literatura Infantil

Em breve, postarei a relação de livros citados durante o curso.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

QUESTIONÁRIOS I E II

Atividade com base no livro Literatura infantil: voz de criança, de Maria José Palo e Maria Rosa Oliveira
Menino Maluqinho, de Ziraldo

1. Resuma o primeiro capítulo, A literatura e o literário infantil, de Palo e Oliveira.
2. Que questão do primeiro capítulo norteará os demais?
3. Qual a diferença entre função estética e função utilitário-pedagógica?
4. Quais as três espécies de figura apresentadas pelas autoras? Qual a importância delas na literatura infantil?
5. No capítulo 3, as autoras tratam da criança enquanto personagem. Faça uma síntese desse capítulo e exemplifique de que forma o processo de inversão ocorre nos textos e quais os possíveis efeitos no leitor ao se encontrar com personagens que agem diferentemente das funções tradicionais. Quais as situações tradicionais de gênero na literatura infantil clássica?
6. No capítulo 4, Discursos e Vozes Narrativas, as autoras destacam a oralidade, a voz narrativa, o riso e o avesso e os jogos sonoros na literatura infantil. A partir do livro de Marta Lagarta, Mamãe Bela, Mamãe Fera, identifique os aspectos mencionados por Oliveira e Palo.
7. Com base no livro Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, mostre como acontece a estratégia de inversão da narrativa e qual o seu propósito.
8. “Na literatura relativa à Lingüística Textual, é freqüente apontar-se como um dos fatores de textualidade a referência - explícita ou implícita - a outros textos, tomados estes num sentido bem amplo (orais, escritos, visuais - artes plásticas, cinema - , música, propaganda etc.) A esse “diálogo” entre textos dá-se o nome de intertextualidade.” (Cristina Mota Maia). Com base nesta definição de intertextualidade, analise de que maneira ela acontece nas produções feitas para as crianças.

9. Leia o texto abaixo e analise com base em qualquer um dos conceitos (pode ser mais de um) de Palo e Oliveira.

A Formiga
Composição: Vinicius de Moraes / Paulo Soledade

As coisas devem ser bem grandes
Pra formiga pequenina
A rosa, um lindo palácio
E o espinho, uma espada fina
A gota d'água, um manso lago
O pingo de chuva, um mar
Onde um pauzinho boiando
É navio a navegar
O bico de pão, o corcovado
O grilo, um rinoceronte
Uns grãos de sal derramados,
Ovelhinhas pelo monte

10. O que você entende por eixo de similaridade e contiguidade? O que Palo e Oliveira consideram mais importante para a literatura infantil e quais as razões?


Literatura e Educação

1.      Quais os principais problemas apontados por Cademartori ao tratar da literatura infantil?

2.      Para a autora, o que caracteriza a literatura infantil?

3.      Qual a relação entre texto e imagem na literatura infantil?

4.      Ligia Cademartori ensina o leitor a escolher os livros de literatura infantil. Quais os critérios estabelecidos pela autora para que se cumpra a seleção dos livros? Você sugeriria algum outro? Comente.

5.      Quais as referências históricas mencionadas pela autora e quais as razões de apresentá-las como acontecimentos importantes para a literatura infantil?

6.      Cademartori faz incursões linguísticas sobre a forma da criança e do adulto perceberem a língua. Discorra sobre essas incursões. Você tem um exemplo prático sobre esta questão para relatar?

7.      Com base nas reflexões de Cadermatori e nas suas também, elabore uma história para o público infantil.

P.S.: o livro de Maria José Palo e Maria José Oliveira, Literatura Infantil: Voz de Criança, encontra-se neste blog em uma das postagens. Procurem através da caixa de busca disponível no lado direito deste blog.

sábado, 15 de setembro de 2012

Produção de Cartazes Escolares

Este é um tipo de reflexão que envolve profissionais das áreas de Letras e Artes Plásticas. Na condição de professora da área de Letras, sinto-me motivada a falar um pouco deste gênero textual, muito usado em sala de aula, mas pouco respeitado, já que a sua confecção se dá quase que intuitivamente pelos estudantes em geral.

Com base nas minhas experiências, deixo aqui a minha contribuição e espero que seja útil.

Como qualquer gênero textual, o cartaz escolar atende a um propósito comunicativo. Em geral, eles são feitos para registrar e divulgar os conhecimentos sobre algum assunto na escola, por isso são afixados do lado externo da sala de aula. O cartaz tem um papel fundamental na aprendizagem do aluno porque o estimula a trabalhar com a linguagem verbal e não-verbal, porém nem sempre os estudantes são orientados para isso.

Antes de elaborar um cartaz, deve-se, a meu ver, responder a algumas questões:

1) O que se quer com este cartaz?
2) Para quem será este cartaz? Qual o público?
3) O que espero da reação das pessoas ao lerem o cartaz?

Com base nas questões acima, deve-se refletir sobre:

1) O cartaz foi feito para materializar estudos? As pessoas leriam? Seria o veículo ideal?
2) Qual a função do cartaz escolar?
3) Por que as pessoas não leem os cartazes escolares? Por que eles nos causam a impressão de estarem poluindo o ambiente? O que há neles de repulsivo?
4) Que linguagem devo usar para o público leitor do cartaz escolar?
5) O que usar no cartaz para que as pessoas passem por ele, parem e leiam?

As perguntas não terminam aqui, mas já é um começo.

Penso que a escolha do suporte é muito importante. O papel metro é bastante usado, mas machucam facilmente e as cores não ajudam muito (branco ou marrom). A forma de fixar o cartaz na parede também prejudica a boa apresentação. É comum vermos as pontas dos cartazes dobradas, quando não caídas pelos corredores das escolas ou então partes do cartaz formando lombadas de ar por falta de cuidado e atenção ao afixar na parede.

Do ponto de vista do conteúdo, creio que um dos maiores problemas está em adequar a quantidade de imagens ao espaço físico escolhido, o que tem a ver com a seleção do material. É frequente as pessoas se sentirem impulsionadas a colocar muitas figuras nos cartazes, provocando confusão e ilegibilidade durante a leitura. Imagens muito pequenas também dificultam a leitura, por isso é importante selecionar as imagens e ver em que suporte elas ficariam melhor arrumadas. Se uma pessoa tem 50 imagens, com certeza não poderá prendê-las em uma cartolina ou papel duplex porque ficariam amontoadas.

É importante dizer ainda que é preciso reservar uma distância de aproximadamente 3 centímetros entre a extremidade do cartaz e o seu conteúdo. Como se fosse a margem do caderno.

Um cartaz não comporta um texto dissertativo, portanto não penso que se deva escrever muito nestes espaços. O cartaz é em geral mais sugestivo porque a linguagem visual é mais importante do que a escrita, usada apenas para breves informações: título e identificação, em geral. Acredito que não compete aos cartazes a exposição conceitual prolongada ou descritiva sobre um estudo, mas o cartaz pode provocar uma reflexão acerca de um estudo. Ele deve servir mais como uma provocação do que ser veículo de conteúdos aprendidos em uma disciplina com o intuito apenas de difundir um conhecimento.

As cores não devem ultrapassar quatro, segundo alguns especialistas, sem contar com o preto e o branco. As fontes e o tamanho estão relacionados, respectivamente, ao público e à distância entre o público e o cartaz ou, ainda, ao DESTAQUE que se queira fazer de uma palavra. Quando se escreve para crianças, é comum o uso de letras arredondadas, mais desenhadas, porém sem abusar deste recurso, pois pode beirar a uma puerilidade afetada. Já um cartaz escolar exige fontes mais formais.

Outro aspecto a se considerar refere-se à disposição das imagens e das palavras no cartaz. Onde colocar a figura? Onde colocar o texto escrito? A meu ver, deve-se considerar algumas questões estéticas: a figura maior, tende a ser a mais importante, por isso deve estar centralizada, as menores devem estar dispostas ao seu redor. Outra questão diz respeito a ordenação, se linear ou randômicas. Mais uma vez a escolha tem a ver com o efeito. Quando dispomos das figuras de forma linear (uma atrás da outra ou uma ao lado da outra) elas dão um resultado visual estático. Se optamos pelo efeito aleatório, daremos uma impressão de movimento, dinamismo.

É importante destacar que a qualidade do trabalho depende muito da limpeza do ambiente e da seleção da bancada de apoio. A superfície para trabalhar um cartaz deve ser lisa e bastante limpa para evitar imperfeições durante o manuseio do lápis. Além disso, há de se considerar também a mão de quem faz, isto é, se uma pessoa é pouco afeita ao trabalho artesanal, ao manejo com instrumentos tão delicados, certamente terá mais dificuldade de realizar esta atividade, que exige muita suavidade, delicadeza e atenção para o detalhe. Qualquer pessoa pode desenvolver esta habilidade, mas precisa conhecer as suas limitações para poder superá-las e sempre praticar para aperfeiçoar.

É importante também fazer uso correto das cores. Sabemos que as cores possuem significados em nossa cultura. O vermelho evoca vida, paixão, sangue e é uma cor muito usada como destaque, devido à sua força explosiva diante dos olhos. Deve-se usá-la com bastante cuidado. O verde e o azul são cores mais suaves e seu excesso pode cansar e passar melancolia. Contudo, faz-se necessário atentar para a gradação das cores, pois existem tonalidade mais abertas que chamam bastante a atenção. É importante verificar o contraste das cores, pois o "tom sobre tom" não provoca estímulo à visão. Colocar verde e azul juntos não causa impacto visual.

Outro aspecto importante: a mistura de tipos de imagem. É possível misturar foto e desenho? Pode, mas tem que saber como. Qual o papel do desenho e da foto no seu trabalho? O cinema tem feito isso com frequência, usando desenhos nos filmes live-action, mas da mesma forma que eles se colaboram no filme, deve ser também nos cartazes. O desenho não pode ficar sem sentido no cartaz, é necessário, portanto, ter consciência do efeito que se quer unindo as duas linguagens. Usar um desenho porque as fotos terminaram pode ser uma motivação, mas este problema pode ser transformado em solução, como recurso estético, artístico, depende apenas de como será colocado no cartaz.


Encontrei o cartaz acima na internet e achei por bem fazer algumas considerações. Tenho certeza que a autora fez o seu melhor e se ela ler os meus comentários, que eles possam ajudá-la nos trabalhos futuros.

O título está bem centralizado e com espaçamento, apesar de pouco, entre a extremidade do papel e o seu conteúdo. As letras vazadas não destacam muito o título, neste caso seria melhor preenchê-las.

As imagens selecionadas parecem querer identificar um bandeirante (imagem em close up), o seu papel na sociedade (plano conjunto e imagem de um mapa) e a sua importância (imagem de uma escultura). Neste sentido, bem construído. Parabéns à autora. Algumas pessoas preferem não emoldurar as imagens, outras acham que dão um efeito melhor. A moldura dá um aspecto mais organizado, destacado à imagem. A minha única ressalva é quanto ao trabalho escrito preso ao centro do cartaz. 

Em um cartaz, não cabe a divulgação de textos longos porque o seu próposito é proporcionar uma leitura rápida, resumida, mas que nem por isso menos provocativa para uma reflexão. Se o objetivo é divulgar um trabalho mais longo, sugiro a apresentação em forma de seminário para a turma e comunidade escolar. Aliás, uma forma de estimular a criança ou adolescente a falar em público e a escrever.

Em se tratando da colagem contendo a identificação, penso que ela poderia ser menor e disposta do lado direito do cartaz. Vejo que esta parte do trabalho foi digitada, mas os textos relacionados às imagens foram manuscritos. Acredito que caberia aqui uma padronização.